Postado por: Giro do Wal domingo, 3 de novembro de 2013




- Me tem, Amor -


“Vou fingir que ainda to dormindo, ele sempre acorda animadinho” Pensava ela, enquanto ele se levantava. Virou para o lado e deu uma resmungada, como quem briga no sonho. Sentiu o cheiro característico do café sem açúcar e se sentiu levemente irritada, talvez fosse, também, o sol entrando pela janela.
                “Daqui a pouco ele vem passar aquela colônia fedorenta”
                - Bom dia.
Estranhou o beijo, era o mais caloroso que já havia ganhado e se permitido dar em anos. “Hoje faço uma comidinha gostosa pra ele, se não fosse essa pasta de dente vagabunda eu até que podia abrir uma exceção”
                Enervou-se novamente ao ver a toalha molhada em cima da cadeira, que fica em frente a penteadeira, com a xícara suja de café na pia da cozinha e o pente inclinado quarenta e cinco graus para fora do armário do banheiro. “Pelo menos hoje não tem migalhas de pão”
                - Vou comprar cigarros.
                Enquanto ele saía pela porta ela corria para a janela, gostava de ver quando ele dobrava a esquina. “Engraçado, não me lembro de ver o Astolfo fumar” Era o que pensava naquela entediante manhã de quarta-feira ensolarada.
                Hoje aguarda na janela ouvindo chorinhos antigos, espera ver a silhueta gordinha vestindo um terno bem passado, voltando alegre para casa, quinze anos depois. 



João Bennett um quase goiano, quase ator, quase escritor, quase legal. Tenho direito de permanecer em silêncio, tudo que eu disser pode, e será, usado contra mim.


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