Postado por: Giro do Wal segunda-feira, 30 de março de 2020

O quadro Corona em Foco recebe hoje a estudante de Jornalismo Aline Morais Vieira, que foi vítima de uma grande Fake News nas redes sociais, após regressar do intercâmbio em Portugal. Durante aproximadamente doze dias a garota foi apontada como portadora do vírus Covid-19, além de ter toda sua família envolvida no caso. Em carta aberta postada hoje no seu Facebook, quando a "Verdade Derruba Uma Fake News", Aline relata tudo o que passou durante o período, os fatos, a exposição sofrida, mensagens de ódio que recebeu e a chegada do resultado do exame.




Por doze dias virei assunto na minha cidade natal, Cruzília - MG, como o primeiro caso suspeito de COVID-19. Durante esse tempo, eu e minha família tivemos nossas vidas expostas e fomos alvos de acusações, sendo grande parte delas falsas. Não espero, através desse texto, a compreensão de ninguém. Só quero usar a mesma rede social que foi ferramenta fundamental para disseminação de mentiras para explicar o que realmente aconteceu.
Meu teste para COVID-19 saiu hoje (30/03) e o resultado é negativo. Qualquer outra informação diferente dessa é falsa.

Ao contrário do que espalharam pelas redes sociais, não estava na Itália. Por cinco meses morei em Portugal, onde fiz intercâmbio e, no dia 04/03 cheguei ao Brasil, no aeroporto do Rio de Janeiro. Meu voo saiu de Lisboa e, nessa data, eram poucos os casos de coronavírus no país. Na verdade, mal se falava sobre. Nos aeroportos, não havia recomendações para viajantes. Quando cheguei ao Rio de Janeiro, nenhum procedimento foi realizado nos passageiros. A única informação foi dita pelo piloto do avião sobre os sintomas decorrentes do vírus e as medidas de proteção.
Por assuntos de faculdade, precisei ficar em Niterói durante uma semana. Na cidade ainda não havia casos confirmados e todos os comércios estavam funcionando normalmente. Não existia quarentena. A percepção do que temos hoje do coronavírus é totalmente diferente do que sabíamos há quatro semanas.
Cheguei em Cruzília no dia 11/03. Permaneci grande parte do tempo dentro da casa dos meus pais. No dia 13/03, o Ministério da Saúde passou a recomendar que todo viajante internacional ficasse por sete dias isolados conferindo os sintomas. Nessa data, completavam nove dias que havia chegado. Mandei mensagem para todas as pessoas que estiveram comigo. Ninguém apresentava sintomas, muito menos eu.
Estive no The Pub, um bar da minha cidade no sábado (14/03) e foi o maior erro que cometi. Fazia dez dias desde minha chegada no Brasil e, como havia passado o tempo recomendado pelo Ministério da Saúde e continuava sem sintomas, decidi ir. Isso deu aval para mais acusações e foi meu maior arrependimento. Entendo a preocupação da população, principalmente das pessoas que estiveram próximas de mim, e sinto muito por terem passado dias de angústias. Não estive em nenhum outro lugar além desse.
Nos dias seguintes continuei sem sintomas. Na quarta-feira (18/03), acordei com um pouco de tosse e espirrando. Minha irmã, nesse mesmo dia, chegou de Belo Horizonte tossindo. Ligamos para o posto de saúde do meu bairro e, entre as informações, expliquei que havia voltado de Portugal há 14 dias. Logo, NÃO FOI DENÚNCIA. Espalharam pela cidade que eu estava escondendo sintomas que não existiam, até então.
Na quinta-feira (19/03), a vigilância sanitária entrou em contato e pediu para que eu, minha irmã e meu pai ficássemos isolados.
Por volta das 17h, a prefeitura de Cruzília soltou uma nota em sua página no Facebook dizendo que o primeiro caso suspeito da cidade havia sido notificado. A partir dessa postagem, começaram a chegar mensagens em meu whatsapp. Meu nome, minhas informações (até então, sigilosas) e dos meus familiares, inclusive minha foto, estavam sendo divulgados na internet. Li vários comentários com acusações antes mesmo do teste ser realizado. Um perfil fake me mandou mensagens de ódio, me acusando de ser a culpada por uma pandemia.
Não fui ao hospital, não fui atendida por nenhum médico e não saí de casa desde então. As únicas pessoas que conversaram comigo, por telefone, foram dois funcionários do posto de saúde e da vigilância sanitária. Agradeço pela paciência e apoio que me deram.
Minha tosse durou três dias. Não apresentei nenhum outro sintoma. Inventaram que meu pai estava na UTI, que minha mãe estava infectada e que o teste havia dado positivo.
Por lei, é proibido divulgar informações que identifiquem um determinado caso, seja ele qual for. Espero que as pessoas que ajudaram nessa disseminação saibam disso e aguardem as consequências. Estamos em uma pandemia, mas nada justifica a exposição que sofri durante esses dias. Além disso, divulgar informações falsas é crime.
Apesar de todo esse caos, recebi muitas mensagens de apoio. Agradeço, do fundo do meu coração, a todos que rezaram e mandaram energias positivas. Vocês foram essenciais! Muito obrigada.
Espero que tudo isso se torne aprendizado e que nenhuma outra pessoa passe por essa exposição, muito menos por essa doença. Só com o isolamento social é possível conter a disseminação do vírus. E, ao contrário do que é recomendado pelo presidente, continuem se cuidando, protegendo os seus e FIQUEM EM CASA!
Aline Morais Vieira - Estudante de Jornalismo na Universidade Federal Fluminense



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