Postado por: Giro do Wal domingo, 22 de julho de 2018

"Sua história entrou para o livro eterno da vida..."



Hoje é um dos dias mais tristes da minha trajetória. Um pedaço da minha história se foi, partiu, criou asas e foi para morada do bom senhor Jesus. Minha bisavó ROSA MARQUES já não está mais entre nós. Recebi a noticia pelas redes sociais e só pude ler algumas horas depois. Meu mundo caiu naquele instante, todo filme rodou na minha cabeça. Lembrei que desde muito criança em Caxambu escutava de minha mãe e nos telefonemas de minha avó Márcia que eu tinha uma bisavó numa distante cidade chamada Itapipoca, no interior do Ceará. Era tudo tão distante, três estados diferentes mas uma coisa que sempre nos uniu, o maior sentimento puro e verdadeiro que alguém pode ter, o amor! Eu sempre acreditei que um dia pudesse encontrá-la e conhecer de perto sua vida. Minha avó Márcia levou mais de quarenta anos para contar para sua mãe que teve uma filha, minha mãe, mesmo não morando em sua terra natal há décadas. Quando menos se esperava eis que chegara uma carta bem simples, porém de cunho muito carinhosa, era ela, que em palavras dizia da satisfação e alegria de ter uma neta desconhecida que morava tão distante de seus olhos e conhecimento. Junto da anotação estava uma foto três por quatro dessa senhora simpática de traços bem marcantes, era nosso único registro. Os anos foram passando, eu e meus irmãos crescendo, muita reviravolta em nossas vidas, entrei para universidade e foi quando tudo tomou outro rumo. Minha avó adoeceu e muito, mas eu acreditava na sua recuperação, que infelizmente não veio. No dia que completei um mês na faculdade, ela se foi. Não pude me despedir pessoalmente, me dói até hoje, mas prometi pra mim mesmo que daria um jeito de conhecer sua mãe e sua origem. Em 2014 eu vi a grande oportunidade do meu sonho acontecer, seria realizado um congresso em Fortaleza, e ali seria  minha grande chance. Primeiramente (eu e um amigo) enviamos um trabalho para aprovação, o qual não foi, já que o evento seria o eixo teatro-dança e nossa proposta teatro-circo. Demos nossos pulos e conseguimos vaga no ônibus. Imediatamente recorri aquela carta de anos atrás que tinha um endereço, era meu guia para a realização de um dos sonhos mais importantes da minha vida. Como nada na vida é flores, tive alguns contratempos e precisei fugir do congresso, não pensei duas vezes. Era um dia de semana, levantei antes do sol, em meio a muitas lágrimas, e ao saber que vó Márcia chamava ao certo Maria, nome que não gostava. Entrei no ônibus rumo a Itapipoca, cidade que não tinha a mínima ideia de localização. Um misto de emoções me carrega, em meio a muitas dúvidas, mas com a certeza do êxito. Um moto-táxi me levou no endereço da carta, ali estavam algumas mulheres de diferentes idades. Me apresentei, logo me recepcionaram e falaram que lembravam da existência da carta e de quando foi escrita. Minha bisa não sabe ler e exclamou as palavras para que os parentes escrevessem o documento. Descobri que a mesma não morava no local e sim no Interior, para nós a roça. As horas foram passando e o tempo encurtando para o nosso encontro, até que um primo me levou de moto pelo sertão adentro. Lembro perfeitamente cada instante do trajeto correndo contra o tempo, ali mostrando os casas dos familiares, uma rápida parada na casa do tio avô Sebastião e sim na sua casa. Um lugar simples, porém aconchegante, me senti em casa. Adentrei e ali ela estava sentadinha com uma varinha ao lado. Parei em sua frente e desabei em planto. Que vitória! Nos abraçamos, tomei bença e contei tudo. Ela um amor e super surpresa, que doce de pessoa. Me contou toda sua história em meio a muitos risos e choros. Foram 45 minutos incríveis. Ao me despedir, prometi que voltaria e que seu sobrenome colocaria junto ao meu! Em Janeiro de 2017, participei de um novo congresso e dessa vez pude ficar um dia e meio ao seu lado. Muita coisa tinha mudado. Sua saúde já estava bem debilitada, não enxergava, passava noites em claro, não reconhecia os próximos e constante diálogo com os que já tinham partido. Foi nosso último contato físico. Infelizmente não consegui levar minha mãe e irmão para conhecê-la, mas Deus me abençoou para esses dois encontros imensamente, sou eternamente grato.

Eu tenho tanto orgulho de ser sangue do seu sangue, da mulher que pariu 12 filhos, criou todos, lutou por cada um, sofreu com machismo de um companheiro rude em meio a seca que castiga o sertão cearense. Em momento algum deixou de sorrir e sobreviveu a tudo e a todos. Hoje, 96 anos de uma história de exemplo da verdadeira mulher brasileira, de um coração incrível e humildade espetacular nos deixou, descansou e está sem dúvidas no céu, seu merecido lugar.

A nossa família, tios avós, primos, netos, bisnetos, tataranetos eu agradeço por pertencer a vocês e que nossos laços nunca que quebrem e sim fortaleça. Eu amo cada um de vocês!

Fica aqui os nossos sentimentos coletivos repleto de muito carinho afeto e amor da família mineira da neta Darcy, dos bisnetos Walfredo, Lyvia, Samuel, Lúcia e da tataraneta que está chegando Cecília Maria...

2014

 2017





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